sexta-feira, 17 de março de 2017

Pela Magia de Acreditar - 7ª e Última Parte



Já sem tocar com os pés no chão, uma vez que sabiam e podiam flutuar, Kiroan e Haran chegaram-se perto da porta. Kiroan era o único a poder entrar. Haran estava por ora no seu limite de ação. Agora só o jovem ninja podia entrar e vencer aquele monstro. Kiroan levava consigo apenas um espelho para refletir os olhos da serpente, e um objetivo no seu coração, tão invisível como ele mesmo, naquele momento.

Eu acredito, foi tudo o que pronunciou para si mesmo, antes de flutuar para dentro da enorme sala onde a serpente incandescente parecia dormitar enrolada a uma enorme pedra branca e salpicada de pequeninos cristais muito brilhantes, na qual o sabre estava pousado.
Na parede a sua frente, Kiroan via escrito com runas, uma frase que leria em voz alta para a serpente ouvir. Nessa frase havia uma palavra escrita completamente ao contrário, com runas que pareciam feitas em outros formatos. Não se podia chegar perto da serpente uma vez que esta queimava todos os que dela se aproximavam e o seu fogo, bem como o seu veneno contido num espigão que existia na cauda, eram mortais.
- Eu sei a frase, serpente.
O enorme monstro incandescente como fogo ergueu a cabeça, mas não o olhou. Não conseguia ver nem sentir de onde vinha a sua voz. Que era um ninja que a viera defrontar, isso ela sabia, mas este ninja não era como os outros ninjas. Este, ela não podia ver, ela não podia tentar matar com os seus olhos âmbar, porque não lhe sentia a presença. Tão somente ouvia a voz que lhe falara.
Sem se desenrolar da pedra que guardava, onde o sabre estava pousado, a enorme serpente movimentava a cabeça de um lado para o outro, numa busca frenética para descobrir de onde viera aquela voz.
- Nessa frase, monstro, a palavra que falta é: Solidão. A frase, monstro, é: Entregues unicamente ao fogo, não descobrimos o amor, mas descobrimos a solidão.
Tão logo terminou de dizer a frase, Kiroan, lançou-se num flutuar frenético, uma vez que a serpente enraivecera-se com o facto de ouvir daquela voz tão desconhecida, a verdade da sua essência enquanto monstro.
Porém o monstro tinha de a ouvir, antes de morrer, para que outros monstros como aquele não renascessem das cinzas, pois fora das cinzas que a serpente incandescente viera.
Kiroan flutuava, e ao tentar fazê-lo cada vez com mais velocidade, tanto para fugir do corpo cada vez mais próximo da serpente, como para conseguir assim colocar diante os olhos âmbar, o espelho que trouxera, era assaltado pelo medo de que as forças se lhe acabassem. A serpente ficaria desfeita em cinzas quando os seus olhos se refletissem no espelho, e naquele momento era preciso dar tudo por tudo, para conseguir fazê-lo. Cada vez mais fraco e mais cansado, e com o calor do corpo do monstro a incomodar devido a proximidade que era cada vez maior, o medo teimava em querer surgir. Mas não. Kiroan, o jovem David não sentiria medo, não seria vencido pelo medo.  Os seus pais esperavam-no e os seus avós também. Havia um mundo de ninjas para voltar a unir, e dois mundos para deixarem de estarem tão distantes, uma vez que juntos seriam bem melhores, bem mais fortes.
Foi ao lembrar as palavras da sua mãe: (Não tenhas medo. A força que há em ti, é sempre maior que a que podes entender. Volta tão logo possas. Esperamos-te, com o mesmo amor de sempre.) que da sua garganta já tão seca pelo calor que sentia, arrancou o grito que lhe devolvia a confiança: Eu acredito!
Enquanto gritava, o mais confiante possível nas forças que lhe restavam, Kiroan, colocou o espelho diante os olhos do monstro e entre manobras tidas por instinto, e um cansaço que já lhe fazia sentir dor, viu fecharem-se os olhos da serpente. Não podia desistir, ainda não. Estava quase. Porém o seu corpo estava cada vez mais fraco, e flutuar era-lhe cada vez mais difícil. A qualquer momento cairia. Mas o corpo daquele monstro estava tão perto…
Quando os olhos da serpente ficaram totalmente fechados, Kiroan soube que estava perto do final. E ao ver o corpo da serpente espalhar-se inerte pelo chão e começar a perder a sua incandescência, Kiroan tivera a certeza que só lhe faltava segurar o sabre, para depois partir.
Quase sem forças e a rasar o corpo da serpente, o ninja aproximou-se da pedra, que estava mais quente do que ele esperava e segurou o sabre. Era um sabre tão leve, tão bonito, tão brilhante. E encaixava-se tão bem na sua mão. Podia ter apreciado mais o momento, mas as suas forças teimavam em terminar.
Não aguentando mais, deixara o sabre cair sobre a pedra, e o seu corpo resvalava logo depois para o chão. A ultima cena que percebera acontecer, era um uivar tão doído e tão aflito, seguido de um bater de asas tão próximo e tão urgente que vinha na sua direção. Não se apercebera de mais nada.
Perdera os sentidos. E quando os recuperou, Kiroan, encontrava-se deitado numa cama enorme e muito macia. Ao seu lado, no chão, junto a cabeceira da cama, estava Lyra. Deitada a olhá-lo atenta e meigamente. Quando os olhos dele cruzaram os dela, Lyra levantou-se satisfeita e ladrou. Pouco tempo passou até o seu velho avô entrar no quarto, seguido dos pais de David e logo a trás Haran. Estavam todos ali, como sempre. Não estaria só.
- O que foi que aconteceu? Só me lembro de…
O avô fez sinal a Haran, para que fosse ele, como já o havia feito tão logo tudo terminara, a contar ao jovem como tudo aconteceu, depois de ele ter caído devido ao imenso calor e a consequente falta de força por causa do esforço.
- David, corajoso ninja Kiroan, tu venceste aquele que foi um dos piores monstros da história dos ninjas. A serpente foi totalmente extinta. Ia-te custando a vida, bem sabemos. Mas nunca, e em momento algum deixámos-te só. Estivemos sempre lá, contigo. Salvaste e devolveste o sabre. E como dormiste por 3 dias seguidos, para recuperares, devo informar-te que Karamin está em paz. Os outros ninjas, ouviram o teu avô, nosso Koroan e, reconheceram ter perdido nesta batalha todos os motivos parvos que os faziam continuar virados contra nós. Não somos amigos, mas, já não somos inimigos, também. Sabes que para vivermos em paz entre os mundos, é preciso cultivar a paz entre os povos, primeiramente. O sabre devolveu a luz às mentes de todos, e era isso que se pretendia. E eu sei que ainda te confunde um pouco o facto de seres tu o ninja escolhido, meu filho, Mas, o teu coração puro, quando segurou o sabre, devolveu-lhe a capacidade de irradiar a luz e a magia que outro coração não poderia devolver.
Cumpriu-se a profecia. És um ninja, Jovem David.
Com um sorriso que demonstrava a alegria de uma missão tão importante ter sido cumprida, David agradeceu e abraçou cada um dos presentes. E recebeu pelas palavras de Haran e do seu avô, os votos de uma rápida recuperação, enviados pelos outros ninjas.
- Mas Haran, de onde veio a fénix que vi antes de perder os sentidos?
- Olha para o teu lado. O teu coração tem a resposta a tua pergunta. Foi tudo o que ele lhe disse, e David não precisou de mais nem uma palavra para entender o que Haran lhe dissera.
Esticou o braço e Lyra aproximou-se, colocando a cabeça sob a mão do rapaz. É só preciso confiar, Lyra. E eu, tu sabes, confio em ti.
Lyra não falaria com ele, mas David sabia que ela também confiava nele. Há coisas que não são necessárias dizer. Basta sentir.
Porque o coração é uma espece de diário da alma, reservado unicamente para os que sonham e acreditam.


*** Fim. ***

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