domingo, 20 de outubro de 2013

A Tua Foto na Moldura é Nada


A tua foto na moldura é nada;
e a tua presença noutros tempos já nem importa,
porque os tempos eram outros e o tempo é areia que escapa por
entre os dedos, por entre as fendas deixadas
no mesmo lugar onde outrora havia um coração – o meu, apenas, por sinal.

A tua foto na moldura é nada.
O relógio até hoje parado, marca a hora de finalmente deixares a moldura;
é que a hora de partires já foi há muito
e tu não perdeste a viajem, se bem me lembro, sem esforço.

Já cuidei do jardim e agora há mais flores onde as ervas predominavam;
já cuidei dos baús e o teu cheiro foi com o vento e
 a tempestade que havia nestas paredes.
Portanto de te não ficou nada; nem no
meu peito vive o teu lugar, porque o amor é como as flores, que
se não se cuidam, murcham e secam, assim como as lágrimas de
sal que secaram no meu rosto, ludibriado
ao olhar, noutros tempos a foto que hoje é nada, como o nada que havia dentro de ti.

A tua foto na moldura é nada.
Larguei o trapézio sem rede e plano sem medo.
Não há mais dardos e espinhos à minha espera; e
nem a tua foto a olhar-me em tom de promessa…

Já se foi o tempo das promessas, já se foi o tempo das esperas;
e com ele também se foram as feridas;
porque a saudade é barco que não aporta no meu cais,
e o coração já não é inventário das coisas que não vivi contigo,
mas quis, quando ainda a solidão fazia sentido, e sonhei,
enquanto a tua foto era a única coisa verdadeira
que no fundo, tinhas p’ra me dar.

                    *                   


2 comentários:

  1. Tem pessoas que carregam um pedacinho de nossa alma e deixa apenas um fotografia... Lindo poema Joana ! Um beijo no seu coração !

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    1. Certíssimo, Sandro... Beijo :)

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