quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Sonhador do Banco de Jardim

 

Todos os dias à mesma hora ele parava no mesmo lugar, sentava-se no mesmo banco de jardim, e num gesto habitual e  distraído, olhava o mostrador do relógio já desgastado pelo tempo, que havia passado por eles e deixara em ambos marcas bem reconhecíveis.

Na mão trazia sempre um livro envelhecido pelo pó que suportara numa qualquer estante e pelas vezes que lhe servira de companhia, nas noites em que a solidão se acercara dele ao longo de tanta vida que já vivera, durante tantos anos, certamente recheados de muitas histórias que teria para contar, mas a quem?, se mais ninguém havia para as ouvir, a não ser o banco de jardim onde se sentava todos os dias, perdido em sonhos que só ele saberia de cor, ou então perdido nas páginas do velho livro que ainda mais o fazia sonhar.

 

Ninguém, para além de mim o notava todos os dias ali, há mesma hora, sentado no mesmo banco a ler um livro, ou a desfrutar de um sonho que lhe conferia brilho aos olhos, e lá quando era, um sorriso que se desprendia dos seus lábios geralmente serrados, assim como serrados eram os poucos rostos que o olhavam sem o verem realmente ali sentado, acompanhado pela solidão, transformada em banco de jardim e em livros e sonhos, que só quem está realmente só, consegue compreender, como eu sei que ele compreendia.

 

Mas hoje já é a mesma hora que era nesses dias em que ele vinha, e hoje ele já não vem e eu ainda olho o banco de jardim, que me parece tão diferente e tão vazio, porque aquele sonhador não mais voltou e o livro da vida que escreveu fechou-se para sempre, assim como se fechavam por alguns momentos os seus olhos, sempre que sonhava e se perdia nas lembranças que mantinha como sendo as únicas relíquias certas, a par da solidão, do velho relógio, dos livros e do banco que ficou tão só, como só ficava aquele que não mais voltou, e só deixou  no seu lugar a ausência que apenas a  solidão sentida consegue recordar e perceber.

 

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