sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Metade


Tenho os lábios secos de palavras.
Tenho as mãos vazias e a roupa em desalinho.
Tenho ainda uma ausência presente no meu fundo,
e um mar de silêncios que não sou capaz de dizer.

Tenho um jogo perdido e uma vida sem rumo,
um livro envelhecido pelo tempo e uma incerteza
cravada no peito, hoje tão parco,
para uma solidão tão longa.

Tenho a força e a fraqueza dos que se perdem,
e tenho o norte
de quem volta sempre que há à
espera uma página em branco e
um sentimento qualquer, que resta, para contar.

Tenho ainda mais um mundo de coisas que
de nada servem e
tenho um jardim sem flores defronte à janela;
tão morto como um corpo frio que
se despediu do mundo, assim como tu de mim.

Tenho as gavetas cheias de poemas que já sobram, porque
a vida, tu sabes, não é poesia e as palavras que eu tinha,
gastei-as contigo - metade que me morreste e eu
nunca mais pude ter
nas mãos – as mesmas com que te
escrevo, agora, pela última vez.

                    *                  

2 comentários:

  1. Bravo Joana! Pude ouvir a voz do poema, pausada , forte, declamada...com paixão ! Parabéns e um forte abraço !

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    1. Grata Sandro, por ter gostado e ter conseguido sentir a força do poema... Um abraço! :)

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